Te quiero, América

“Com todos os seus mísseis, e as suas enciclopédias, e a sua guerra das estrelas, e a sua fúria opulenta, com todos os seus triunfos, o Norte é quem ordena. Mas, aqui embaixo, bem embaixo, perto das raízes, é onde a memória nenhuma recordação omite. E há aqueles que desmorrem, e há aqueles que desvivem, e assim juntos eles conseguem o que era impossível: que todo mundo saiba que o Sul também existe”.

Mário Benedetti

Nestas minhas andanças pelo mundo, nunca estive tão próxima do meu lugar.

No meio de pessoas falando em outros idiomas, encontro a minha fala e é aqui que quero estar.

A América do Sul é minha paixão, é onde tenho as minhas raízes, por mais que eu ande aqui e acolá. E é com grande tristeza que recebo as notícias do Chile. Como vocês devem ter visto, o povo chileno está nas ruas impulsionado pelo aumento dos preços da passagem de transporte público, um estopim que conhecemos tão bem.

Está claro que não foi só isso. Tudo no Chile ficou muito caro nos últimos anos. Em dez anos, o aumento para comprar ou alugar imóveis foi de 150%. Não há saúde pública e os remédios são caros para a maioria da população. As universidades públicas são todas pagas. Sim, você leu isto: lá o que é público é pago.

Mais de 50% da população chilena vive com menos de um salário mínimo.

Para ganhar a vida, o chileno encara uma jornada de trabalho de 45 horas, férias de 15 dias e meia hora de almoço.

Soma-se a tudo isso a péssima distribuição de renda do país e previdência que obrigatoriamente passou a ser privada – lá cada trabalhador tem que se virar com seu futuro, o que vem contribuindo para os suicídios de idosos – que, sozinhos, não têm com o que sobreviver.

Fica claro que a enorme crise começou com o aumento das passagens do metrô, mas não se restringe a ela. Muito além de manifestos, a violência tomou conta das ruas, com incêndios, ataques, saques e – infelizmente, mortes.

O que está acontecendo no Chile deixa claro também o fracasso das políticas neoliberais que resultaram em recessão, desemprego, retirada de direitos, e privatizações como estamos presenciando no país e também no Equador, mas que os Argentinos já deixaram claro não tolerar mais, com o resultado das suas urnas.

No Neoliberalismo, todos os serviços públicos são privatizados e muito caros, os salários cada vez mais baixos, nada de leis trabalhistas, seguro saúde só para quem pode pagar e a aposentadoria é feita por capitalização, atendendo somente da classe média alta para cima. Este modelo, que deveria estar para sempre sepultado, é sinônimo de miséria, crise social, privilégios para grandes grupos econômicos e injustiça social. Não à toa, o Chile decretou estado de emergência, e a fúria continua à solta na América do Sul. Equador, Peru, Bolívia, Chile, Venezuela, Paraguai e Argentina vêm registrando manifestações populares, distúrbios políticos e confrontos em 2019. Um ano difícil para nossos vizinhos, com quem muito podemos aprender.

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