“Mulheres no comando.”

“Mulheres no comando.”

2“Essas mulheres intensas estão sacudindo a indústria da beleza. O futuro é feminino. Além do mais, o futuro está aqui, como evidenciado por essas mulheres inspiradoras. De CEOs a fundadores de empresas que lançaram impérios de beleza, passando por educadores criando editoriais impressionantes enquanto ensinam a próxima geração, a influenciadores que lideram o estilo nas mídias sociais, essas líderes notáveis estão mudando a maneira como olhamos para a beleza. Mas como elas veem o mundo e que lições de vida ajudaram a permear essas visões? Vamos descobrir.”

O parágrafo acima abre a matéria de Julho de 2019 da revista americana Beauty Launchpad, que entrevistou algumas mulheres que estão realmente transformando o nosso setor.

Fui entrevistada em abril deste ano e é com muita alegria que compartilho aqui na íntegra o conteúdo, para que mais e mais mulheres possam se inspirar e mudar o mundo.

Obrigada, Launchpad!

Como você começou neste setor? O que tem de melhor lembrança de quando começou?

Posso dizer que nasci no setor, porque, desde a minha infância fui apaixonada por cabelos. Eu era muito nova e perto de casa havia um salão de beleza. O local era bastante conhecido na cidade de Assis, no interior do Estado de São Paulo, no Brasil. Como eu era criança ficava somente observando as clientes que saíam de lá. Certo dia fui falar com a dona e pedi emprego para ela, que dizia que não podia, pois eu era uma criança e as clientes não entenderiam. Não desisti e insisti. Vi o chão cheio de cabelos e ofereci minha ajuda para varrer o chão. Peguei todos os fios de cabelos, coloquei em um saco plástico e levei tudo para minha casa, onde comecei a trabalhar.

Fiz uma espécie de mural e separava os fios de cabelos. Com os trocados que recebia comecei a comprar produtos de alisamento e fazer testes nas nessas mechas e em mim mesma. Depois comecei a testar em minhas amigas.

Comecei a trabalhar como auxiliar e criava penteados e cortes. Misturava produtos e testava em mim mesma – o que me levou a buscar tratamentos efetivos com qualidade superior e acessíveis a todos.

Com 15 anos de idade, abri meu próprio salão, nos fundos de casa, e aí não somente o lado alquimista viria a despontar, mas também o lado visionário e empreendedor.

As minhas melhores lembranças desta época estão ligadas às conquistas com os resultados dos produtos. Eu ficava feliz quando conseguia deixar alguém feliz com seus cabelos.

Qual é a sua maior conquista até hoje?

Tenho várias, como o desenvolvimento de produtos para a Inoar. Mas não posso me esquecer do lado humano e tenho um orgulho imenso do projeto social, Beleza Solidária, que atua na melhoria das condições de vida de centenas de famílias. O projeto oferece cursos de capacitação em serviços de beleza, e, por meio de parcerias com instituições beneficentes, realiza ações como cursos ou doações de caráter emergencial, com a distribuição de kits destinados a cuidados pessoais.

Por conta de ações como esta, recebemos agora no mês de abril a confirmação de que estamos participando oficialmente do Pacto Global das Organizações das Nações Unidas.

O Pacto Global da ONU é a maior iniciativa de sustentabilidade empresarial do mundo, convidando as empresas a alinharem as estratégias e operações com os princípios universais de direitos humanos, trabalho, meio ambiente e combate à corrupção, e a tomarem medidas que promovam objetivos sociais.

Assinei meu apoio aos Dez Princípios do Pacto Global e vamos trabalhar para implementá-los, tanto na Inoar, quanto no projeto Beleza Solidária. Com isso tornaremos o Pacto Global e seus princípios parte da estratégia, da cultura e das operações cotidianas dos negócios para o Desenvolvimento Sustentável.

As ações práticas que a Inoar vem desenvolvendo ao longo dos anos, algumas descritas abaixo, têm total sinergia com os princípios estabelecidos pelo Pacto Global: Direitos Humanos, Trabalho, Meio Ambiente e Luta Contra a Corrupção. Agora, somos participantes desta grande iniciativa da ONU que vem reforçar tudo aquilo em que sempre acreditei.

Quando você se deu conta de que tinha “chegado lá”? Fale sobre um momento em que se viu bem-sucedida.

Depois de uma vida inteira dedicada ao meu sonho de criar produtos e desenvolver marcas, o que chamam de sucesso só chegou mesmo, para mim, aos 55 anos de idade. Antes disso, foi luta atrás de luta, com derrotas no meio.

Eu me vejo bem-sucedida quando mulheres que usam Inoar ou que conhecem minha história se aproximam de mim para dizer que as inspiro. Sou abençoada por ter essa responsabilidade!

Quais são seus planos para daqui a 10 anos?

Fazer uma nova faculdade. Voltar a dançar. Quero aprender mais um idioma. Estou estudando novas tecnologias e modelos de gestão. Vou voltar a dar palestras. Estou criando novas marcas. O mundo é do tamanho da gente.

Que conselho honesto e útil você daria a um colega que pensa em seguir uma carreira semelhante?

Primeiro: não existem fórmulas. O mercado cosmético é altamente competitivo. É preciso inovar sempre, estar atenta a todas as movimentações, enfrentar concorrências desleais, falsificações de produtos, dificuldades para importar matéria-prima. Não existe zona de conforto.

No início, enfrentei muitos obstáculos financeiros. Bancos não fornecem capital sem garantias, mas as dificuldades sempre serviram de aprendizado para a gente.

Quando a gente foi crescendo e a Inoar chegou a um patamar que começou a incomodar as grandes marcas, me vi nadando com tubarões, e sem poder sangrar. São empresas nacionais e multinacionais nessa corrida, algumas com muitos mais recursos. Não há dias fáceis, em um cenário desfavorável para ter uma empresa, em um país com este contexto de insegurança, de desigualdade, de machismo.

É aí que entram as múltiplas habilidades que uma mulher precisa ter para se destacar. Não basta você ser criativa, você tem que saber brigar. Mas,  como conselho, sempre vou dizer: não perca sua fé.

O que você mais ama nessa indústria? Ou o que você acha mais inspirador?

Eu amo criar. Tenho um perfil altamente inovador, eu não gosto da mesmice. E são muitas as coisas que me inspiram. Ver um espetáculo me inspira, ouvir uma música. E eu consigo transportar tudo isso para os produtos que crio, acredite. Quando pego um frasco da Inoar nas mãos, não vejo um produto, um shampoo, um creme. Vejo a minha vida inteira ali. A embalagem, a fragrância passam toda a nossa história, e os nossos consumidores se identificam com ela. Nós trabalhamos assim: queremos deixar algo concreto para a história da Inoar, fazendo parte da vida das pessoas. Se pensarmos que a beleza é passageira, por outro lado um produto desenvolvido com tanta coisa para contar acaba se tornando eterno.

Inocência Manoel
Co-Fundadora da Inoar
Diretora de Marketing, Criação e Desenvolvimento
Fundadora do projeto Beleza Solidária Inoar

“Chore no começo para sorrir no fim.”

“Chore no começo para sorrir no fim.”

“Chore no começo para sorrir no fim.” Essa foi a frase que a jogadora Marta, da Seleção Brasileira de Futebol, nos deixou na última semana, após a eliminação na Copa do Mundo.

O desabafo da jogadora tem tudo a ver com a importância da nossa força feminina para vencer os obstáculos.

Não se chega a lugar algum sem esforço, sem muito suor, e esta é uma verdade universal. Para as mulheres, é ainda preciso ser mais forte.

Quando eu era criança, não havia notícias de mulheres jogando bola. Certamente elas seriam discriminadas – como muitas são até hoje. Foram necessários anos de verdadeiras desbravadoras abrindo os caminhos para as que chegaram hoje a uma Copa feminina, que teve a maior audiência de todos os tempos. E ainda assim houve quem dissesse: “mas mulher não deveria jogar futebol.”

Esse mesmo discurso, pare para pensar, já foi dito a outras atividades que a gente teve que conquistar na unha. Ser empresária é uma delas. Por mais que eu viva no mundo dos cosméticos, da beleza, ele ainda é um universo em que muitos homens querem dar a palavra final.

Estou neste caminho há tempos. Nós, mulheres, estamos. Abrindo caminho para muitas que vieram atrás. E é preciso muita parceria para continuarmos nele. Precisamos ser um verdadeiro time.

Marta encerrou sua entrevista dizendo: “é preciso valorizar mais”. E eu estou com ela: valorize quem foi na frente. Valorize quem tem a ensinar. Valorize as mulheres que não se acovardaram.

Valorize quem perdeu noites de sono para ganhar aquilo que, no fundo, é o que você quer também.

Mulheres têm prazo de validade?

Mulheres têm prazo de validade?

 

“Cheguei aqui à meia-noite, dormi na fila e acabei de ser descartada, como se eu fosse um lixo”, diz Edna Teixeira, de 58 anos, cabisbaixa.

A frase ilustra uma dura matéria da BBC News Brasil sobre o drama das pessoas com mais de 50 anos que passam a noite na fila e saem sem trabalho do Mutirão do Emprego. (Confira aqui).

E ela vem reforçar muitas das minhas constatações sobre carreira, preconceito e algumas histórias que vivi na pele e ainda sinto, como mulher e empresária.

Depois de uma vida inteira dedicada ao meu sonho de criar produtos e desenvolver marcas, o que chamam de sucesso só chegou mesmo, para mim, aos 55 anos de idade. Antes disso, foi luta atrás de luta, com derrotas no meio.

Porém, a trajetória de uma mulher que opta por seguir nesta carreira é permeada de preconceito, como se eu não tivesse o direito de estar aqui, fazer o que faço, chegar onde cheguei.

Num país em que as mulheres assinam 72% dos artigos científicos publicados, ainda somos minoria. O desemprego é tradicionalmente maior entre as mulheres. Ao lado dos jovens e dos pretos e pardos, a população feminina é das mais afetadas pela falta de oportunidades no mercado de trabalho.

Por outro lado, quem está no mercado de trabalho, tem suas lutas diárias contra o preconceito. Não é só no Brasil, mas costumam de achar mais nova do que realmente sou, e aí, quando revelo a minha idade, os olhares mudam: “Ah, mas você já pode se aposentar.”

Dizem que a mulher esconde a idade, mas por diversas vezes nos vemos obrigada a isso. Algumas vezes, para esconder a pouca experiência. Algumas vezes, para esconder que não estamos nem perto de parar. Dentro da minha própria empresa, um diretor geral tentou me aposentar.

Quando me tornei avó, então, tentaram me colocar na forma de uma avó tradicional. E na minha melhor idade, precisei lembrar a todos que eu não sou quem esperam que eu seja. Eu sou feita das minhas experiências, dos meus erros, meus acertos, meu repertório cultural e de vida. E não estou aqui para satisfazer a expectativa de ninguém. Como diz a incrível Martha Medeiros:

“Adoro massas cinzentas, detesto cor-de-rosa. Penso como um homem, mas sinto como mulher. Não me considero vítima de nada. Sou autoritária, teimosa e um verdadeiro desastre na cozinha. Peça para eu arrumar uma cama e estrague meu dia. Vida doméstica é para os gatos.”

Tirando a parte da cozinha e do cor-de-rosa, me identifico. Nunca me encaixei em padrões, vão querer me formatar agora?

Se na minha juventude abri mão de tantas coisas, agora vou fazer tudo o que deixei para trás. Comecei a fazer uma nova faculdade. Vou voltar a dançar. Quero aprender mais um idioma. Estou estudando novas tecnologias e modelos de gestão. Vou voltar a dar palestras. Estou criando novas marcas. O mundo é do tamanho da gente.

Hoje, tenho um filho bem casado, bem-sucedido, por quem trabalhei muito. E com isso, tenho plena convicção de que chegamos aqui íntegros e agora é hora de me ressignificar.

Mulheres sofrem preconceitos e pré-conceitos. Quem disse que, depois dos sessenta não podemos ter cabelos compridos, usar jeans e camiseta? Onde é que está escrito que meu cabelo precisa ser branco, ou platinado, ou prateado?

Hoje o tempo é meu. No período mais rico da minha vida, quem quiser seguir meu ritmo, pode chegar. Se não, eu já danço a dança da vida sozinha mesmo. E feliz, obrigada.

Coloco toda essa reflexão aqui em um momento em que é desumano olhar a fila do desemprego e ver tantas mulheres, senhoras e os idosos ainda tendo que lutar por sobrevivência – não por seus sonhos.

Na Inoar, idade nenhuma nunca foi pré-requisito para uma contratação. A empresa reflete meus valores pessoais, e estes estão muito à frente. Pessoas e mulheres não têm prazo de validade.

Dia Internacional da Mulher

Dia Internacional da Mulher

Neste Dia Internacional da Mulher, resolvi trazer histórias de mulheres que foram chamadas de loucas, mas que não estão no comercial da Nike.

Mulheres que mudaram o mundo, que nos inspiram a mudar a nossa condição, que nos dão força para continuar quebrando padrões. Não precisamos de medalhas, temos nossa voz.

A história está cheia de mulheres que superaram não só o preconceito, mas que quebraram paradigmas. Hoje é dia de celebrar cada uma delas.

Com vocês, a voz das mentes femininas sobre a vida, o sucesso, a felicidade:

“O maior conselho que já dei à minha filha é que todo dia eu digo: ‘Genesis, quais são as suas duas melhores partes?’. E ela diz: ‘meu cérebro e meu coração’. Digo: ‘você precisa se lembrar disso, Genesis. Precisa se lembrar que você não é a sua aparência‘, sabe? Acho que essa é a melhor dica de beleza que eu poderia dar a ela.”
– Viola Davis, atriz

“Não gostar de mim é um direito seu, agora fingir que gosta já é falta de caráter.”
– Amy Winehouse, cantora

“Uma criança, um professor, um livro e um lápis podem mudar o mundo.”
– Malala Yousafzai, defensora dos Direitos Humanos

“Aquele que é feliz espalha felicidade. Aquele que teima na infelicidade, que perde o equilíbrio e a confiança, perde-se na vida.”
– Anne Frank, jovem judia morta pelo nazismo

“Sozinhos, pouco podemos fazer; juntos, podemos fazer muito.”
– Helen Keller, primeira pessoa cega e surda a conquistar um título de bacharelado

“A verdadeira generosidade consiste em entregar-se completamente e, mesmo assim, sentir que não lhe custou nada.”
– Simone de Beauvoir, filósofa francesa

“Quanto mais velha eu fico, mais me interesso pelas mulheres. Ainda não conheci uma mulher que não é forte. Elas não existem.”
– Diane von Furstenberg, economista e estilista belga

“Quando você tropeçar, mantenha a fé. Quando for nocauteada, levante rápido. Não ouça quem diz que você não pode ou não deve continuar.”
– Hillary Clinton, Secretária de Estado dos Estados Unidos

“As rosas da resistência nascem no asfalto. A gente recebe rosas, mas vamos estar com o punho cerrado falando de nossa existência contra os mandos e desmandos que afetam nossas vidas.”
– Marielle Franco, vereadora assassinada

“Se eu não fizer pelos outros o que não fizeram por mim, não teria aprendido nada.”
– Inocência Manoel

 

 

Mulheres que apedrejam mulheres

Mulheres que apedrejam mulheres

“Mas Tu, Senhor, és o escudo que me protege, és a minha glória, e me fazes andar de cabeça erguida.”

Salmos 3:3

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Este é com certeza um dos posts que eu não gostaria de escrever. Quando a gente tem uma trajetória da qual sente orgulho, fica difícil lembrar dos momentos ruins. Mas, ao mesmo tempo, é muito importante falar deles num mundo em que, cada vez mais, as pessoas não são aquilo que parecer ser.

Como muitos sabem, sou de uma família bastante simples e trabalhei grande parte da minha vida como cabeleireira. Com muito esforço consegui mudar o meu destino ao fundar, juntamente com meu filho, Alexandre, uma marca de cosméticos que hoje é mundialmente conhecida. E, com muita luta, venho mudando também o destino de outras pessoas ao fundar e investir no projeto social Beleza Solidária, de que tanto me orgulho (um pouco do nosso trabalho pode ser visto aqui), afinal, levo a sério os versos de Caetano: “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome.”

Por conhecer bastante de pessoas, por ter sempre fé que há mais corações dispostos a colocar em prática aquilo que pregam, é que me dói trazer aqui o tema de hoje. Talvez por ingenuidade minha, mas as minhas maiores dores não foram causadas pelos negócios, ou mesmo pela dificuldade de empreender e conciliar tantas atividades profissionais e pessoais. Minhas tragédias foram causadas por mulheres.

Mulheres que estavam ao meu lado, amigas, familiares. Mulheres que sentaram à minha mesa, que dividiram tantos momentos. Há também as que chegaram depois e que foram grandes predadoras da minha vida pessoal, querendo assassinar minha reputação como mulher, como mãe, como empresária. Coisas que eu não sei se teria coragem de contar. Mas a gente precisa mesmo é falar, porque assim criamos uma rede de mulheres que se ajudam e mudam de uma vez essa falta de empatia que podemos ter umas com as outras.

Sororidade.

Entre 2012 e 2017, a busca pela palavra “sororidade” aumentou 100% no Google e, em 2017, “o que é sororidade?” encerrou o ano em quinto lugar no ranking de pesquisa do site. O prefixo soror significa “irmã” em latim. E o caminho é por aí. Sororidade é a solidariedade entre as mulheres. É dar voz a uma amiga, a uma irmã. É andar com os sapatos dela, para saber quão árduo é seu caminho.

E temos muito a fazer neste sentido. “Enquanto os homens são capazes de machucar o meu corpo, as mulheres têm o poder de destruir a minha alma.” Assim começa o livro “Twisted Sisterwood” (da escritora americana Kelly Valen), um importante estudo que aponta que 90% das mulheres percebem “correntes de maldade e negatividade emanando de outras mulheres” de maneira frequente. Além disso, 85% afirmaram ter sido vítimas de grandes golpes, que mudaram suas vidas, de outras colegas. E mais: 75% disseram ter sofrido com o comportamento de amigas íntimas ciumentas e competitivas.

A apresentadora Oprah Winfrey comenta que o livro é “leitura obrigatória ao colocar o dedo na ferida de algo que tem sido escondido debaixo do tapete”.

Mas, por que isso acontece? São duas as teorias, e elas têm a ver com a própria história da humanidade. A psicologia da evolução explica esse comportamento por meio da seleção natural, pelo qual a mulher precisa se proteger do perigo físico que outra mulher poderia representar. Coisas dos tempos das cavernas.

Já outra tese, da psicologia feminista, atribuiu o comportamento à disputa das mulheres pelo homem. Num exemplo simplista, porque certamente há muito mais a ser discutido: competiríamos umas com as outras pelo melhor partido, por aquele que poderia nos proteger e engravidar – também remontando ao passado.

Madonna, cantora norte-americana já havia dito, quando Donald Trump venceu Hillary Clinton nas eleições presidenciais americanas: “As mulheres odeiam as mulheres. É nisto que acredito”, disse ela para a revista Billboard. “A natureza das mulheres é a de não apoiar outras mulheres. É realmente triste. Os homens se protegem entre eles e as mulheres protegem seus homens e os filhos”. “As mulheres olham para dentro (…). Muito tem a ver com ciúmes e algum tipo de incapacidade tribal para aceitar que alguém como elas possa dirigir uma nação”.

Num outro extremo, vale lembrar que a falta de empatia é um dos sintomas dos sociopatas e que os transtornos mentais estão aumentando consideravelmente na sociedade moderna. Nas redes sociais, por exemplo, você coloca um post e quando menos espera, há alguém que viu ali uma fagulha que nada tinha na ideia original. Mas pronto, passa a ser verdade. Reviram a sua vida em busca de uma “falha”. De uma vírgula que possa ser usada contra você. Sim, há mulheres fazendo isso.

A sociopatia é classificada como um transtorno de personalidade que é caracterizado por um egocentrismo exacerbado, que leva a uma desconsideração em relação aos sentimentos e opiniões dos outros. E para  muitas mulheres existirem, é necessário “matar” a outra, que a incomoda. Por meio de difamação, de desmoralização, rompendo laços que nunca mais serão resgatados.

Da minha parte, um testemunho: sofri discriminação por parte dos homens, mas não na mesma intensidade e nível de perversidade que as mulheres têm. Mulheres podem ser mais machistas que os homens e o que me faz seguir em frente, quando entendo que ao meu lado talvez não tenha aquela figura feminina que a gente idealiza ao longo da vida, é a minha fé.

Essa é inabalável, é o meu sagrado feminino dizendo que não, nunca estarei sozinha.

Inocência Manoel

O relacionamento abusivo de cada dia. Por Inocência Manoel

O relacionamento abusivo de cada dia.                         Por Inocência Manoel

A cena é clássica: a mulher começa a apresentar um projeto e, antes que consiga finalizar seus argumentos, os homens presentes na sala começam a interromper, tentam tomar a sua voz ou resolvem concluir a apresentação, como se ela não fosse capaz de terminar.

A interrupção da fala ganhou em inglês o nome de “manterrupting”, assim como o “mansplaning” é quando ouvimos do homem explicações óbvias de um assunto que você domina.

Termos novos para situações que sempre ocorreram, esses comportamentos machistas muitas vezes passam despercebidos e são recorrentes também em relacionamentos abusivos.

Chamadas de “silenciosas”, as violências psicológicas, morais e patriarcais trazem prejuízos profundos a suas vítimas. Dano emocional, diminuição da autoestima ou controle de ações por meio de ameaças, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância, insulto, perseguição e limitação do direito de ir e vir também são violências que não podem ser ignoradas.

É certo que cerca de 41% dos casos de violência acontecem dentro de casa. Além disso, 3 em cada 5 mulheres sofreram, sofrem ou sofrerão violência em um relacionamento afetivo. Porém as relações tóxicas acontecem também entre amigos ou no trabalho.

O termo workplace mistreatment vem sendo utilizado para englobar uma série de comportamentos abusivos no trabalho, entre eles o social undermining, aquela situação em que um profissional desmoraliza seu colega; o bulliyng, caracterizado por humilhações repetidas; e os diversos tipos de conflito interpessoal em ambientes muito competitivos.

Alguma coisa parece estar mudando, mas o caminho ainda é longo. Em 2018, o movimento #MeToo escancarou o problema e empresas gigantes, como a consultoria Deloitte, demitiram colaboradores por comportamento inapropriado.

No artigo publicado no site The Conversation , o professor e pesquisador Daniel G. Saunders, da Universidade de Michigan, traz à tona a dificuldade de sair de um relacionamento abusivo.

Desde as dificuldades financeiras, até o medo de ninguém acreditar na situação, são vários os motivos que as pessoas têm para permanecer em um relacionamento tóxico. Por vezes, o maior inimigo é a própria autoconfiança da vítima, que não acredita ser possível viver sem o opressor.

Em todos os casos, para sair dessas relações, é necessário ajuda. Tanto de apoio especializado quanto de amigos e familiares que reforcem os laços sociais sadios.

No ambiente profissional, cada vez mais acredito num modelo de gestão mais colaborativo. O tempo da imposição por meio da força acabou – já vai tarde. É preciso livrar as pessoas dos opressores e, como empresária, tenho estado cada dia mais atenta para as mudanças essenciais que transformam as relações – para que sejam mais humanas, justas e saudáveis.

“Mais pobres podem levar até 9 gerações para atingir renda média no Brasil”. Como uma mãe solo vive nesta realidade. Por Inocência Manoel

“Mais pobres podem levar até 9 gerações para atingir renda média no Brasil”. Como uma mãe solo vive nesta realidade. Por Inocência Manoel

A maturidade faz coisas incríveis com as pessoas. Mas, com as mulheres, é ainda melhor. O passar dos anos clareia a nossa consciência, nos livra de tabus e estigmas, dá a importância e o peso certo para cada coisa em nossa vida.

Hoje não tenho medo de abordar nenhum assunto, mesmo os pessoais. Sei que por meio deste blog, das minhas postagens e minhas palestras eu ajudo outras mulheres a enfrentarem os leões de cada dia. Mulheres se fortalecem, ajudam umas às outras quando os homens “protetores e provedores” resolvem simplesmente sumir.

Sempre valorizei a minha independência. Num tempo em que as mulheres eram criadas para casar e cuidar de casa, eu escolhi desbravar o mundo, sair da zona de conforto e desenvolver produtos. E tudo isso criando um filho sem a presença do pai.

“Mãe solteira?”, me perguntam. Não, eu sou Mãe Solo. Sempre fui e nunca gostei do primeiro termo. Maternidade não é estado civil e o estigma enfrentado pelas mães que não eram casadas é um fardo que definitivamente não precisamos carregar.

Me desdobrei com as responsabilidades necessárias para cuidar do meu filho, hoje presidente da Inoar. E contei com uma rede de apoio feminina para  chegarmos a este lugar que, acredite, não é de luxo, mas de muito trabalho e uma jornada por vezes árdua.

Nasci numa família humilde, num país em que os mais pobres podem levar até 9 gerações para atingir a renda média. De acordo com a excelente matéria do El País, que ilustra este post, e pode ser conferida aqui, um estudo sobre mobilidade social elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontou que 35% dos filhos de pais posicionados no um quinto mais pobre do Brasil terminam a vida nesse mesmo estrato social. Além disso, apenas 7% deles chegarão a figurar entre os 20% mais ricos.

Minhas perspectivas, vamos combinar, não eram lá as melhores. Fui cabeleireira. Tive um salão. Fali algumas vezes. Falhei tantas outras. Mas era eu ali. Sem uma figura sequer ao meu lado para dividir o fardo. Me orgulho muito de ter carregado isso sozinha, porque, se as dores eram minhas, o aprendizado é meu também.

E ser mãe solo tem disso: aprender a se equilibrar entre as responsabilidades de criar um filho e continuar batalhando para viver, pagar as contas. É aprender a não dar bola para os estigmas, eles sempre vão estar ali para te lembrar que você não faz parte do padrão (sério, não se importe com os padrões). É aprender que o preconceito vai bater na sua porta todos os dias. Mas que você vai saber muito bem o que fazer com ele