O CANCELAMENTO DA MATURIDADE

COLUNA NA REVISTA HM

Como uma especialista no assunto cabelos, tenho visto dentre as movimentações de tendências o cabelo grisalho cada vez mais em evidência. Sabemos que a pandemia contribuiu para as mulheres assumirem um visual natural, sem ter que recorrer ao cuidado específico de salões, mas, mais do que isso, vejo como um recado sendo dado por grande parte das mulheres nos dias de hoje: estamos envelhecendo e isso não pode ser um tabu.

O preconceito chamado de etarismo (ou ageísmo) existe na sociedade pela dificuldade que todos nós temos em aceitar que a vida está passando para todos. Quase que um mecanismo de defesa nosso de negar que estamos envelhecendo. E estamos envelhecendo o tempo todo.

As redes sociais trouxeram uma aceleração e uma mudança muito significativa para a comunicação de marcas com seus consumidores ou clientes, mas elas, ao mesmo tempo contribuem para estigmatizar a velhice. Como se as pessoas mais velhas não pertencessem àquele lugar, por não estarem tão familiarizadas com tecnologia ou determinados assuntos – dancinhas, trends, e afins.

Então acontece o que eu chamo de “Cancelamento da Maturidade”. O que é uma perda enorme, inclusive para os mais jovens, pois há pessoas de todas as idades construindo a rede, criando conteúdos excelentes, a despeito de sua idade, e isso se perde por uma questão de puro preconceito.

O mercado de trabalho também vem passando por transformações profundas. Hoje no Brasil, temos mais 29 milhões de idosos, e a verdade é uma só: cada vez mais vamos ter pessoas maduras com um potencial enorme de trabalho – estima-se que em 2060 o país tenha mais pessoas idosas do que jovens.

No meio da beleza, por exemplo, todos nós conhecemos casos de profissionais que fizeram história e depois caíram no esquecimento. Por ter aprendido o que sei até hoje com grandes mestres cabeleireiros, me sinto no dever de falar disso aqui. O mundo precisa saber que os profissionais de beleza também envelhecem e precisam ser vistos de outra forma pelas novas gerações, que não estão fazendo jus a quem veio antes deles. A seus mestres. A quem desbravou os caminhos.

O cabeleireiro famoso de hoje aprendeu com quem? Todo mundo começa uma carreira sem saber de tudo e, certamente, tem seus mentores, suas escolas. Conversei com um colega de profissão que teve as mesmas referências que eu e sem citar nomes queremos trazer exemplos de histórias que são o mais puro exemplo deste tipo de preconceito com as pessoas maduras.

Nós tivemos uma grande mestra no passado que foi uma precursora de técnicas premiadas mundo afora. Ela foi reconhecida no Japão, na Europa e nos Estados Unidos. A melhor cabeleireira de uma grande rede brasileira, que contribuiu – e muito – para a carreira de vários profissionais.

Uma pessoa que ensinou grande parte dos colegas bem-sucedidos de hoje. E que, no auge da sua maturidade, não queria parar de trabalhar, pois amava o que fazia. Porém foi colocada no ostracismo unicamente por sua idade. Foi demitida porque não a queriam mais ali. E, mesmo tendo tanto a contribuir, não tinha mais espaço. Foi quando ela adoeceu, nunca mais se recuperou e faleceu.

Infelizmente, este caso não é único. São vários os casos de artistas que fazem tanto pelos seus colegas e que, quando mais precisam, são descartados.

Em nosso meio, a gente sempre precisou se ajudar. Viemos de uma história de profissão sem nenhum benefício ou auxílio. Quando ficávamos doentes, os amigos colocavam o nosso nome na comanda para não perdermos renda, era isso ou acabar sem nada.

Mas mesmo as maiores estrelas foram deixadas de lado. Foi pensando nisso que trouxe este assunto hoje à tona. Valorizar um cabelo grisalho tem muito significado. Temos que honrar quem nos ensinou. Foi assim que aprendei e assim seguirei: em gratidão. Todos os anos, na Beauty Fair, no maior estande da feira, a Inoar levava as gerações precursoras para seus palcos, para receberem suas homenagens. Sempre fiz questão disso, porque elogio foi feito para ser público também. Ainda mais nestes tempos em que tudo é efêmero.

Eu aprendi que os mestres devem receber uma “révérence”, que é como dizem na dança, após cada aula. Temos que citá-los e honrá-los para que não morram em nossas memórias.

E é importante que o tema seja amplamente discutido por todos – e que mais salões e empresas se mobilizem para incluir pessoas maduras em seus quadros de colaboradores, viabilizando recursos e capacitação. Quando eles têm outro ritmo, talvez seja a nossa vez de desacelerar, não é mesmo?

E, se como humanidade, queremos todos caminhar para a frente, temos que saber que seremos mais velhos amanhã. E lembrar que precisamos de adaptações culturais, inclusivas e digitais para que a sociedade acompanhe essa movimentação. Mas isso não pode ficar só em mim. Todo mundo precisar ter este olhar e não esquecer que essa maturidade que está aí tem muito a entregar, precisa de emprego, renda, saúde, qualidade de vida e também exercer uma função na sociedade e dar sentido emocional à vida – isso é vital.

Eu quero construir coisas, fazer coisas novas, estou sempre olhando para o futuro – é para lá que eu vou. Mas jamais deixarei de honrar o meu passado e quem veio antes de mim.

Dedico a coluna de hoje a Wilma Ribas e Mário Merlino.

Que a arte de vocês jamais seja esquecida.

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