TETO DE VIDRO DA INDÚSTRIA DE COSMÉTICOS

COLUNA NA REVISTA HM

O mercado de cosméticos, como vocês sabem, é um dos que mais crescem no mundo. E dados do censo americano apontam que, no mundo do consumo, uma mulher pode valer por dez homens. Isso porque elas decidem 85% das escolhas de consumo, um número que se torna ainda mais expressivo quando se trata de produtos de beleza.

A participação de mulheres nesta indústria é tão fundamental que chega a ser um paradoxo ter mais homens nos cargos de alta gestão de um setor essencialmente voltado para nós, mulheres.

Os dados confirmam: a indústria da beleza tem uma média de apenas 29% de liderança feminina em conselhos e equipes executivas, de acordo com o LedBetter Gender Equality Index, grupo de pesquisa que administra um banco de dados e aplicativo que mostra o número de mulheres na liderança das principais marcas e empresas de consumo do mundo.

“Consumidoras mulheres, homens na liderança.” Soa estranho a você também?

Além de viver isso no meu dia-a-dia, e lutar a todo instante para mudar este cenário, venho acompanhando estudos que ressaltam a existência de um afunilamento hierárquico, ou seja, cada vez menos mulheres conforme aumentam as atribuições de liderança e comando nas organizações.

Os motivos para isso acontecer são barreiras sutis e imperceptíveis, impeditivas de oportunidades de carreira ao gênero feminino, bem como de progresso profissional, denominado efeito Teto de Vidro.

Fruto da prevalência de uma cultura machista, herança de uma sociedade marcadamente patriarcal, o Teto de Vidro está, na verdade, por toda parte, construindo uma imensa barreira para a mulher crescer em sua trajetória profissional.

Este cenário é tão contramão nas tendências observadas mais recentemente, que quase me revolta. Mas se contra dados não há argumentos, cito mais um dos muitos a que tenho acesso diariamente: um estudo da Harvard Business Review revelou que a participação da liderança feminina está associada a um aumento de 15% na lucratividade das empresas.

Não é a toa que as empresas que conseguem investir em políticas de igualdade de gênero e diversidade apresentam melhores resultados, inclusive na sua rentabilidade. Essas informações estão no relatório Women in Business and Management: The Business Case for Change (‘Mulheres nos negócios e na gerência: por que mudar é importante para os negócios), divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), órgão pertencente à ONU.

O relatório analisou mais de 70 mil empresas em 13 diferentes países. E por que ainda é preciso falar sozinha disso?  Esses dados se repetem em diversos países e não têm sido suficientes para mudar a dura realidade de que na nossa indústria a maioria dos cargos de liderança ainda siga ocupada por… homens.

Se a beleza é feminina, o mercado tem se apresentado extremamente machista. Hoje estou no meu lugar de fala e agradeço a oportunidade de poder fazer algo para mudar. Por mim e pelas gerações futuras, não me calo mais.

Os desafios constantes que enfrentamos variam. Se somos firmes e precisamos fazer nossa voz ser ouvida, muitas vezes atravessadas pela prática sexista de ser constantemente interrompidas, dizem que sofremos de “rompantes coléricos”.

Já o homem, numa mesma situação, é chamado de firme, seguro, é aplaudido de pé. Se somos maleáveis, nos chamam de fracas.  Se ousamos virar a mesa, ou elevar nossa voz, nos chamam de histéricas. Tudo o que é visto em um homem como uma grande qualidade profissional, para nós, vira desqualificação. A todo tempo, nossa imagem está em teste.  

O machismo é tão velado e enraizado, que muitos não percebem quando ele acontece. Tendo as mesmas competências, as mesmas responsabilidades, as pessoas procuram os homens para se reportar. O machismo estrutural é exatamente isso: fomos todos levados a acreditar, durante anos, que existe um padrão em que homem é mais, mulher é menos (quando convém), empregado e institucionalizado por gerações, sem os devidos questionamentos.

Porém, vale lembrar que todos nós temos os nossos tetos de vidro. E que satisfazer as necessidades dos consumidores é algo pelo qual todas as empresas devem se esforçar.

Neste caso, honrar seus desejos por mais liderança feminina pode melhorar a força do negócio como um todo. O que estamos esperando?

Inocência Manoel

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