Os extremos da ignorância

Paira sobre o país não somente uma pandemia nunca antes vista, mas também um momento de trevas. Posso até dizer que a crise que estamos vivendo não se atém somente à área da saúde e à economia de nosso país, mas ela está conectada à mais profunda ignorância que conhecemos: aquela que não se assume, aquela que rejeita os fatos, aquela que não quer a sua própria cura.

Na História, a Idade Média foi conhecida como a Idade das Trevas. Isso porque esta é uma época em que o desenvolvimento cultural, científico e técnico fica em segundo plano, uma vez as pessoas estavam envolvidas em um obscurantismo religioso, econômico e social que prejudicou a expansão do pensamento e da educação no período. Para completar, a sociedade medieval também tinha um histórico de grandes epidemias, como a peste negra. A educação era restrita, havia a inquisição queimando todo mundo que pensava diferente, a centralização da economia restrita aos feudos e as desigualdades sociais.

Já nos séculos 17 e 18, surge na Europa um movimento cuja principal característica era a valorização da razão, considerada o mais importante instrumento para conseguir qualquer tipo de conhecimento. É o Iluminismo que procura combater as “trevas” do período anterior, com a luz da ciência, do pensamento, da educação. O Iluminismo prega o progresso, a liberdade, o saber.

Trago um pouco desses momentos vividos no passado justamente para abrir uma reflexão importante neste mundo que me lembra as trevas do passado. Se, por um lado, temos acesso a tanta tecnologia e informação, por que a onda de extrema ignorância ainda paira como uma nuvem carregada, em um momento que mais precisamos de luz?

As evidências falam por si: um estudo publicado na Universidade Diego Pontales, no Chile, relatou o fato de que o mundo, durante a pandemia, reconheceu o papel central da escola na vida socioeconômica e política dos países, contribuindo para sua prosperidade. Por outro lado, no Brasil, a verba destinada à educação foi a menor nos últimos trinta anos.

O desprezo pelo conhecimento fica latente nas redes sociais. Qualquer um passou a se autodenominar doutor nas áreas que não estudou. Amigos, vizinhos e familiares escolhem a dedo o que vão compartilhar: “aquilo em que acredito ou quero acreditar deve ser verdade, vou postar.” Não têm filtro de conhecimento ou veracidade, mas têm filtro para ficar com a pele bonita.

São responsáveis por fake news e por propagar mais ignorância: acham que a vacina foi criada do dia para a noite, que o distanciamento social é frescura, que a máscara pode ficar pendurada no queixo e que um remédio indicado pelo amigo do amigo vai evitar o contágio. “Ah, mas não faz mal”. Faz sim. Mas a pessoa está nas trevas. Não adianta acender nenhuma luz. Ela não quer ver.

A cura está longe, para o Coronavírus e para os extremos da ignorância. E o primeiro sintoma desta é negar. Negar, inclusive, o negacionismo. Negar a ciência, negar dados, propagar notícias sem fundamento que beiram a desonestidade intelectual.

Estamos sem governo e sem discernimento também.

E a ignorância, aliada ao vírus, é fatal. Inocência Manoel

3 comentários em “Os extremos da ignorância

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